Reserva Almaúnica Syrah 2011 10


Analisando detalhadamente o Almaúnica Syrah 2011.

Analisando detalhadamente o Almaúnica Syrah 2011.

Tenho que confessar que nunca encontrei um vinho tinto nacional que me conquistasse. O Brasil tem excelentes espumantes, ótimos vinhos brancos, mas não tinha sorte com vinho tinto. Resolvi então comprar dois vinhos para analisar e tentar mudar essa minha opinião. Um deles foi o Reserva Almaúnica Syrah 2011.

O vinho foi comprado e pago por mim (não recebo vinhos e nem viagens grátis, tudo é pago do meu bolso) e analisei o vinho da maneira mais independente, seguindo a avaliação sistemática do Diploma da WSET, o nível 4. Abaixo a avaliação e, no final do texto, minha opinião.

Reserva Almaúnica Syrah 2011

Aparência: Um vinho brilhante, de cor rubi média/profunda, com lágrimas.

Nariz: limpo, instensidade dos aromas média, com aromas de amora negra, floral (violeta), cassis, chocolate, baunilha, tostado (madeira) e algo vegetal. No nariz, o vinho é jovem.

Palato: Vinho seco, de acidez media, álcool médio, corpo médio+, taninos médios e instensidade dos sabores médio. Sabores como fruta preta e tostado. Taninos, apesar de não serem pronunciados, eram verdes (não maduros). Final curto.

Conclusões: qualidade aceitável. Razões: faltou balanço entre os elementos do vinho, em especial tanino e sabores e, apesar de ter diversos aromas no nariz, na boca o vinho não tinha complexidade, nem intensidade de sabores. Final curto também, desaparecendo os sabores em questão de segundos. Vinho não tem tipicidade, não representa bem a uva Syrah.

Potencial de guarda: Beber agora, não adequado ao envelhecimento.

Agora que coloquei a parte técnica, vou traduzir aqui com minha opinião. Um Syrah é normalmente um vinho com muita personalidade. Você não esquece um Syrah. Os aromas e sabores são intensos, o vinho é encorpado, a acidez alta, tudo é demasiado no Syrah. Essa uva, que é típica da região francesa do Rhône, se dá bem em regiões quentes e secas e tem um alto potencial de qualidade. Na Austrália, Syrah virou Shiraz e faz vinhos potentes e deliciosos. A uva está presente também no Chile e África do Sul, fazendo belos vinhos.

Todas essas regiões tem em comum serem mais secas que o Vale dos Vinhedos, que chove cerca de 1800 mm por ano (fonte: valedosvinhedos.com.br). Barossa chove, por exemplo, cerca de 550 mm por ano. A região do norte do Rhône, na França tem cerca de 900 mm de chuva por ano, ou seja a metade do que chove no Brasil e irrigação é proibida. Chuva é boa para a videira, mas em grandes quantidade começa a dissolver os sabores. Você terá uma uva maior, sua colheita será maior, mas essa uva tem muita água, que dissolve o restante do conteúdo.

E foi exatamente isso que o vinho pareceu para mim, diluído em sabores. Além disso, o aroma de vegetal que senti no nariz, pode ser resultado de não amadurecimento suficiente das uvas, ou, o que eu acredito, de se fermentar uvas bem maduras (daí os sabores de fruta negra), com uvas não tão maduras.

Resultado: eu não voltaria a comprar e aliás não terminei a garrafa. O vinho custou R$ 55,00, que não é abusivo, mas por esse preço eu compraria um Shiraz sul-africano como o Haven Point, que tem muito melhor estrutura e complexidade. Ou compraria um italiano Santa Cristina. A uva não é Syrah, mas a felicidade é garantida. E se pensar que isso equivale a US$ 25,00, no exterior eu já compraria um Rosso di Montalcino ou um Penfolds Shiraz dos mais baratos.

Infelizmente ainda não foi esse vinho tinto brasileiro que me encantou. Boa quinta!

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10 thoughts on “Reserva Almaúnica Syrah 2011

  • luiz

    Oi Ale!! muito legal a tua análise desse vinho da Alma Única, essa é uma vinícola aqui do Rio Grande do Sul, ela fica na estrada entre Bento Gonçalves e Garibaldi, ainda não fui fazer visitação lá, mas pretendo ir, ahahah!!! Já tomei um merlot deles e gostei bastante, mas claro, cada um tem o seu paladar e respeito demais a tua opinião. Mas pode ter certeza que temos excelentes vinhos aqui no RS, e com certeza você irá encontrar um que corresponda com as tuas expectativas. Um abração!!!!

    • Ale Esteves Post author

      Luiz,
      ainda não provei todos e realmente falta muito vinho brasileiro na minha “litragem”. Por isso escolhi ir provando alguns que me indicaram e vou falando aqui. Também acho que gosto é algo pessoal e, por isso na análise, tentei afastar tudo que eu já tinha provado e não gostado, e dar a opinião técnica. E tecnicamente, não parecia um Syrah. Acho também que existe uma diferença entre provar vinhos em eventos, ou na vinícola ou no restaurante, em que o ambiente e as pessoas te envolvem, e analisá-lo friamente, sozinho, sem nada para acompanhar, que te faz prestar atenção em outros detalhes.
      Obrigada sempre pelas mensagens! Abraço, Ale Esteves

    • Ale Esteves Post author

      O Miolo, se não me engano provei às cegas em um evento e me surpreendeu positivamente, Antonio Dias nunca provei. Vou iniciar uma fase de mais vinhos brasileiros. Já me indicaram o Angheben também, preciso comprar. Abraço e obrigada pelo comentário, Ale Esteves

  • Fausto

    No início da matéria imaginei que viesse uma boa notícia ……….Afinal,um bom vinho nacional !………… Mas , que nada .
    Infelizmente , com níveis de chuva de 1800 mm por ano no Vale dos Vinhedos , é muito difícil . Existiria algum produtor
    de Syrah no Vale do São Francisco ?

    • Ale Esteves Post author

      Fausto, obrigada pelo comentário e interessante o exemplo que você citou. No Vale do São Francisco, por ser uma região tropical, a colheita é feita duas vezes por ano. Com isso, a videira sofre um estresse e não tem capacidade de produzir vinhos de qualidade. A videira, como planta de zona temperada, necessita de um período de dormência, que não há em regiões tropicais e subtropicais.
      Eu já provei espumantes de lá, razoáveis, mas não me arrisquei em um tinto. Sei que o Paralelo 8 vende a valores bem em conta, mas sinceramente pelo que eu estudei em teoria de viticultura não teria grande potencial. Há que ver na prática. Abraço, Alessandra

  • Lairton

    Eu também vou com a opinião que tintos Brasileiros ainda tem muito a melhorar.
    Estão falando bem do Guatambu Rastro dos Pampa Tannat, comprei e vou provar…
    Fui a uma degustação na Grand Cru Floripa, com vinhos da Brancaia, com a enóloga da vinícola Italiana. Nenhum me empolgou, ao menos para meu gosto, não são ruins, mas ainda continuo com dica aqui do blog com os vinhos da Antinori e Rocca delle Macìe, são muito superiores.
    Abraço!

    • Ale Esteves Post author

      Tem razão Lairton, não é só o Brasil que tem que melhorar. Na verdade há vinhos de todas as qualidades em qualquer país. Eu também já ouvi falar do Guatambu, depois me conte o que achou.
      Abraço, Alessandra

  • André

    Olá Alessandra, venho fazendo uma retrospectiva nos seus posts e vi que nessa avaliação, parece que você usou um estojo de aromas. É isso mesmo? Se for, qual a forma que você usa? Obrigado e parabéns.