Leia de novo: vinho barato melhor que vinho caro? Impossível…


Imagem: lisamccombs.com

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Nos últimos dias vários sites publicaram a notícia sobre um vinho de 1 euro degustado às cegas na Espanha, que foi um sucesso, enganando muitos profissionais do vinho. Eu sempre vejo esse tipo de notícia com bastante cautela. Na verdade, a qualidade e o preço de um vinho tem a ver com diversos fatores, e não há como simplificar ou generalizar esse fato.

Para saber o custo de uma garrafa de vinho, por exemplo, temos que levar em conta o preço do terreno. Em Champagne, por exemplo, o custo de 1 hectare de vinhedo Grand Cru custa 1,5 milhões de euros. Na Toscana, o preço já vai ser de 100 mil euros, em Mendoza na Argentina, o hectare custará 30 mil dólares (Global Vineyard Index, 2013). Com isso já dá para perceber como em certas regiões o vinho nunca poderá ser barato.

Além disso há o preço da uva. Você já experimentou um Cava espanhol como o Freixenet ou Codorniu? Esses produtores pagam 0,20 de euro por quilo de uva. Em Champagne o quilo da uva Grand Cru vale 6 euros, uma super diferença de preço. Além destes fatores básicos e mais evidentes, há outros, que resolvi colocar em uma tabela:

tabela-vinhos caros x baratos

Vendo os dados da tabela, realmente fica difícil fazer um vinho de alta qualidade por um preço irrisório. Então porque os especialistas se enganaram?

Na minha opinião, degustar em feiras ou eventos de vinho é muito mais difícil que em ambientes controlados. Talvez o profissional não tenha tido tempo suficiente para análise ou faltou concentração e foco. Digo isso porque a WSET (Wine and Spirits Education Trust) treina muito para que seus alunos saibam diferenciar a qualidade dos vinhos às cegas. Ainda que você não saiba a região, você poderá deduzir a qualidade de um vinho de acordo com os componentes dele (aromas complexos, final longo, etc).

Ainda assim, há quem diga que pouca gente sabe diferenciar um vinho de 100 dólares e um de 1000 dólares. E nisso eu tendo a concordar. A grande verdade é que pouca gente tem o paladar treinado o suficiente para perceber a diferença de qualidade em vinhos que já são da categoria premium. Também, nessa faixa de preço outros fatores fazem parte do preço do vinho e nem sempre vale degustá-lo às cegas.

Lembro aqui que vinho não é só uma bebida. Vinho também é história e você paga pela raridade, pela especialidade e pela marca, e degustar às cegas nesse caso não tem valor. Dizem que 1945 foi uma grande safra na Europa. Não só porque terminou a II Guerra Mundial, mas porque a qualidade das uvas foi superior a outros anos. Você não adoraria degustar um vinho de 1945? Mas e se às cegas este vinho não estiver tão bom como outros de uma safra mais recente? O que você está fazendo neste caso: analisando tecnicamente um vinho ou degustando história?

Para citar mais um exemplo, eu já contei aqui no site sobre o vinho Tignanello e como ele é especial para mim (relembre aqui). Hoje em dia eu reconheço que este não é o melhor Supertoscano que existe e nem o melhor vinho que eu já provei na vida. Eu mesma já me decepcionei com algumas safras dele. Mas para mim seu valor é emocional.

Assim, o preço de um vinho é mais que fatores meramente objetivos e factuais. Mas mesmo levando em conta somente estes fatores (preço do terreno, da uva e fatores de produção) um vinho de 1 euro não tem como ter alta qualidade, a não ser que o produtor o venda com prejuízo, já que só o preço da garrafa e da rolha já seria maior que isso.

Finalmente, o que havia dentro da garrafa? Isso nunca vamos saber, já que a degustação era às cegas, correto? Vamos continuar então, na busca por vinhos bons e de bom preço.

Aproveite sua sexta!

Ale Esteves

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