Degustação às cegas com deficientes visuais 15


Às vezes, faltam palavras para descrever nossas sensações, e com certeza não vou conseguir descrever exatamente o que senti na degustação às cegas com o Grupo Ver o Vinho.

Era sábado, frio e feio em São Paulo e fui até o bairro do Limão para encontrar a sommelier Daniella Romano e falar ao seu Grupo Ver o Vinho. O grupo, que se reúne há quase 3 anos, foi criado para ensinar sobre vinho a deficientes visuais.

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Mesmo vendada, eu falava com as mãos.

 

Daniella me contou que não foi fácil, que teve que adaptar tudo: marcação das taças com bolinhas, cartas de aromas em braile e ensiná-los a girar a taça de um jeito que o vinho não esparramasse. Mas três anos depois, lá estavam eles, alegres, falantes, um grupo conciso, unido.

Eu escolhi para falar com eles sobre espumantes. O grupo foi bem receptivo e adorou. Comecei a falar um pouco sobre o champagne, sobre os métodos para se fazer espumante e sobre as principais diferenças entre espumantes no mundo. Aí fui convidada a colocar a máscara, para que eu experimentasse exatamente o que eles sentem.

 

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Aromas ficam mais intensos e a atenção fica redobrada, quando você não vê nada ao seu redor.

Servimos 4 espumantes e logo de cara vi a diferença quando a Daniella perguntou: “Qual o tamanho das bolhas?”. Tamanho foi algo que sempre determinei visualmente. Era fácil. Bolhas finas, bolhas médias. Mas vendada, tive que aprender a sentir as bolhas na língua. Lá ninguém teve dúvida, só eu.

O segundo espumante era rosé, eu sabia porque tinha servido, mas eles não. Como então eles podem determinar a cor de um vinho? Eles sentiram aromas diferentes, sentiram um leve amargor no gosto, que só poderia ser do tanino, ou seja das cascas da uva, portanto possivelmente um espumante rosé. Ponto para eles!

Depois a Daniella saiu porque a TV Brasil filmou o grupo nesse dia. Há um programa chamado “Programa Especial”**, em que a 1ª repórter Down do mundo, Fernanda Honorato, entrevista pessoas com diversos tipos de deficiências e a Fernanda foi conhecer esse trabalho.

 

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Provamos: Prosecco, espumante Miolo rosé, Cava, e espumante Salton brut.

Eu continuei com o grupo e provamos mais dois espumantes. Eles demonstraram total conhecimento sobre aromas, regiões e tipos de uva. E para mim, confesso que foi sendo mais fácil pensar nos aromas com a máscara. Eu fiquei de olhos fechados sob a máscara, então não desviei a atenção e achei aromas que talvez nunca tivesse sentido.

O espumante preferido da degustação foi um Cava espanhol (Freixenet Cordon Negro), que com seus aromas de abacaxi, pêssego em calda, alta acidez e final longo, agradou a mim e ao grupo.

 

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Integrantes do Grupo, Fernanda Honorato (centro), ladeada por Daniella Romano (esq.) e eu (dir.).

Depois a simpática repórter entrou na aula, degustou conosco, entrevistou algumas pessoas do grupo e acabei sendo entrevistada também, porque era a única vidente (termo correto para quem vê) do grupo.

Eu aprendi bem mais que ensinei. Aprendi a ver qual o espumante correto pelas bolinhas no copo, a sentir o tamanho das bolhas e aprendi a me concentrar para sentir os aromas.

Acabamos a manhã com muitos abraços calorosos, risadas, convite para que eu voltasse outras vezes e com a sensação de que a única deficiente ali era eu, que via tudo, mas que não sentia tudo.

O Grupo Ver o Vinho tem página no Facebook e a Daniella Romano é também criadora de Aromas do Vinho e tem um site. Acesse, conheça e curta a página deles! Saúde!!

**O Programa Especial vai ao ar aos sábados às 10:30 da manhã na TV Brasil.

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