Camões e a cortiça*. 4


Quando li os “Lusíadas” de Luís de Camões na escola, confesso que entendi bem pouco. É difícil entender conceitos, nuances e uma escrita tão formal, quando não se tem a maturidade suficiente.

Hoje lembrei de Camões ao ser convidada para participar de um concurso da Associação Portuguesa de Cortiça (APCOR). Mas afinal, o que Camões tem a ver com cortiça?

Bom, os dois representam muito bem Portugal. Luís Vaz de Camões, que viveu no século XVI, é até hoje um dos maiores poetas e escritores portugueses. Sua principal obra, “Os Lusíadas” conta a história dos heróis portugueses e do explorador Vasco da Gama, que navegaram ao redor África para encontrar um novo caminho às Índias. Um dos trechos marcantes do livro é a estrofe 138, do canto III:

“Do justo e duro Pedro nasce o brando
(Vede da natureza o desconcerto!)
Remisso e sem cuidado algum, Fernando,
Que todo o Reino pôs em muito aperto;
Que, vindo o Castelhano devastando
As terras sem defesa, esteve perto
De destruir-se o Reino totalmente,
Que um fraco rei faz fraca a forte gente.

Afora a crítica que Camões faz à personalidades da época, a última frase, para mim, é a que me faz pensar na cortiça.

A cortiça, vem de uma árvore chamada sombreiro, ou Quercus suber. Estas árvores, que são uma espécie de carvalho, dão sua primeira colheita com 25 anos de idade e após, somente a cada 9 anos sua casca pode ser novamente retirada, de acordo com a legislação européia. É um material leve e com alto poder isolante e que usamos nas mais diversas aplicações: na minha casa está no quadro de avisos, no meu porta-copos, nos saltos do meu sapato e finalmente, na minha coleção de rolhas de vinho e nos meus vinhos. Portugal é o maior produtor e exportador de cortiça do mundo (cerca de 30% das árvores e 50% do mercado de cortiça)** e é referência para rolhas de cortiça, na indústria do vinho.

Mas como se determinou que a rolha de cortiça seria o fechamento ideal para o vinho? Bem, conta-se que há mais de 5.000 anos, a cortiça já era utilizada na China, Egito e outras regiões do mundo***, nas mais diversas aplicações. Mas a prova da relação entre vinho e cortiça veio efetivamente de escavações que acharam uma ânfora datada do século I a.C., com vinho, em Éfeso (hoje na Turquia).

Os romanos, que foram os responsáveis por disseminar a cultura do vinho por toda a Europa, começaram a utilizar vidro (em formato de jarras) para armazenamento de seus vinhos e a rolha de cortiça para o fechamento. Seus vinhos podiam durar até 125 anos e muitos eram defumados em lareira para criar um efeito parecido ao do envelhecimento do líquido em madeira****. Eles já usavam cortiça para tornar seus navios mais leves e utilizavam o material em seus sapatos também, como isolante térmico*****.

Com isso então, há mais de 2.000 anos a rolha de cortiça é considerada o fechamento ideal para o vinho. Alternativas como rolhas sintéticas ou tampa de rosca surgiram nos últimos 40 anos, mas nenhuma ainda é tão eficiente a longo prazo, como a rolha de cortiça.

Mas, voltando a Camões e, analisando bem sua última frase:

“Que um fraco rei faz fraca a forte gente”

A frase para mim, diz tudo sobre a cortiça como fechamento das garrafas de vinho. Ora, não adianta criar um grande vinho (forte gente) e fecha-lo com sistema ineficiente (fraco rei). Isso o fará fraco. E o fechamento é efetivamente o rei em uma garrafa de vinho: dele dependem a longevidade e qualidade do líquido, assim como a felicidade do reino depende das decisões do rei. Fraco o rei, fraco o vinho, forte o rei, forte o vinho.

Eu, assim como Camões, prefiro reis fortes em minha vida. E você, escolhe o que?

 

Alessandra Esteves

 

*Texto publicado originalmente para o Concurso 100% cortiça.

**Robinson, J. Oxford Companion to Wine. Acessado em 21 de agosto de 2014. Disponível para assinantes em http://www.jancisrobinson.com/ocw/detail/closures

***Sítio da Apcor, acessado em 21 de agosto de 2014. Disponível em: http://www.apcor.pt/artigo/historia-cortica.htm

****Esteves, A., 2014. Vinhos da Itália: o guia definitivo para você entender os vinhos italianos, 1a edição eletrônica.

*****Disponível em: http://www.planetcork.org/history_of_cork.html

ThinkPink! Fotografia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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4 thoughts on “Camões e a cortiça*.

  • António Sousa Prates

    Cara Alessandra ( ilustre colega de profissão !),
    venho por este meio felicitá-la pela escolha de cortiça nos seus objectos de utilização diária.
    Gostava contudo de realçar ou elucidar para dois pequenos pormenores na produção de cortiça.
    O primeiro prende-se com a idade do sobreiro para a tiragem da cortiça branca, virgem ou brava. Dificilmente um sobreiro com 25 anos de idade tem as dimensões mínimas legais para a desbóia ( nome atribuído à tiragem desta cortiça ). Para que um sobreiro possa ser descortiçado tem de ter cerca de 80/90 centímetros a 1,3 metro de altura do solo. Muito, muito dificilmente um sobreiro com 25 anos de idade tem estas dimensões! Diria mais 27/28 anos de idade para a desbóia. Peço desculpa pelo preciosismo.
    Por outro lado em Portugal a cortiça só pode ser tirada do sobreiro com 9 anos de criação após a última tiragem. Tal sucede no meu país ( fruto da legislação nacional e não europeia ) mas tão somente porque ao fim de 9 anos a cortiça tem calibre suficiente para a produção de rolhas. Gostava contudo de realçar que noutros países como Marrocos ou a Tunísia a cortiça não deve ( não sei qual a legislação marroquina ou tunisina ) ser tirada com menos de 10 anos de idade. Isto porque o clima marroquino ou tunisino são mais agrestes que o clima em Portugal o que leva a que a cortiça não tenha bons calibres com 9 anos de idade de criação. Se procurar na internet poderá inclusivamente encontrar fotografias de pranchas de cortiça nas quais é possível verificar os efeitos de um ano agrícola seco. A prancha de cortiça apresenta uma falha no crescimento correspondente a esse ano de criação seco ou muito seco.
    Ou seja a cortiça não pode ser tirada com menos de 9 anos de idade de criação em Portugal pelo clima que é propício ao crescimento regular e permite a extração com esta idade ( segundeira ou amadia ) o que já não sucede noutros países produtores e transformadores!
    Muito obrigado pela atenção.
    Cumprimentos,
    António S.P.

    • Ale Esteves Post author

      Antonio, obrigada pelo comentário e obrigada por acrescentar tanto ao meu texto. Bastante interessante o que você escreveu porque sempre a rolha que fecha o vinho vai ter mais idade que o próprio vinho (pelo menos a maioria). Grande abraço, Alessandra