A Argentina e os diferentes terroirs de Mendoza


Estive em Mendoza em dezembro de 2015, em uma viagem organizada pela Wines of Argentina. Apesar de já conhecer o país e seus vinhos, foi minha primeira vez na região.

Mendoza está a leste da Cordilheira dos Andes, a cerca de 1.000 km da capital Buenos Aires. Você pode chegar lá voando direto do Brasil (só a Gol faz), via Buenos Aires ou via Santiago do Chile (que foi o que eu fiz). A cidade, com 115 mil habitantes tem excelentes restaurantes e boa infra estrutura turística.

Mas são as vinícolas e seus vinhos que fazem essa região da Argentina brilhar. Em 4 dias de viagem, provamos vinhos de mais de 26 produtores, totalizando cerca de 130 vinhos. E foi muito interessante.

Mendoza tem 3 regiões importantes para produção de vinhos: Maipú, Luján de Cuyo e Valle de Uco. Dentro destas, há ainda subregiões como Tupungato, Altamira e Gualtallary (Valle de Uco), Agrelo, Perdriel, Las Compuertas e Vistalba (Luján), entre outras. Há ainda regiões como San Martín, que tem a maior área de vinhas plantadas do país, mas que não entra no escopo desta análise.

Essas três regiões se diferenciam pelo solo e clima, trazendo diferenças brutais a seus vinhos. Um Malbec do Valle do Uco, por exemplo, vai ter mais notas florais. Um Malbec de Maipú, por outro lado, notas bastante frutadas e especiadas. Além disso a acidez e nível e qualidade dos taninos é bastante diferente entre as regiões. Importante é falar que a maioria das vinícolas tem feito análises de solo dentro de parcelas dos vinhedos, para adequar a melhor uva ao melhor local.

Nos vinhedos da Bodega Doña Paula.

Nos vinhedos da Bodega Doña Paula.

Martín Kaiser, enólogo da Doña Paula nos apresentou uma análise de solo super interessante, comparando e constrastando as regiões argentinas, de Salta à Patagônia e falando das diferenças entre as subregiões de Mendoza. Fizemos um teste com três vinhos Malbec, todos de Gualtallary: um de solo arenoso, um de solo pedregoso e um de solo pedregoso com calcário. Aqui minhas anotações:

Malbec Gualtallary 2015 arenoso: fruta negra, vegetal, especiarias, taninos leves.

Malbec Gualtallary 2015 pedregoso: menos aromático no nariz, bem frutado na boca, com muita especiaria.

Malbec Gualtallary 2015 pedregoso com calcário: floral, perfumado, frutas negras, bastante tânico, mas com taninos doces e álcool bem integrado.

Também nos disse que estao fazendo testes com outras variedades européias, como as italianas Casavecchia, Ancellota e Aglianico.

Provei o Doña Paula 1350, um corte de Cabernet Franc (50%), Malbec (45%) e Casavecchia (5%). No nariz, bastante floral, com aromas de frutas negras, especiarias e notas florais e medicinais. Na bosca, fresco, complexo, muito equilibrado entre taninos e álcool e muito agradável. Delicioso.

PRODUTOR DOÑA PAULA
ANO 2013
REGIÃO MENDOZA
PAÍS ARGENTINA
PONTUAÇÃO 89
COR tinto
BEBER ATÉ 2023
DATA DA DEGUSTAÇÃO Dezembro-2015

Outros produtores, como Bodegas Casarena, a Familia Zuccardi e Pulenta Estate, também trabalham com diferentes terroirs, fazendo vinhos single vineyard, ou seja, que vem de um vinhedo apenas. Isso para mostrar a diferença entre as parcelas de terreno.

Vinhedos de Malbec na Bodegas Casarena.

Vinhedos de Malbec na Bodegas Casarena.

Sobre as variedades diferentes, a Rutini Wines, por exemplo, tem um Gewurztraminer que achei bem interessante. A Finca Decero foi reconhecida pelo seu Petit Verdot e a Bodegas Trapiche, trabalha com vinhos varietais de uvas como Petit Verdot, Cabernet Franc e um corte de Syrah e Viognier.

Provei o Iscay Syrah Viognier 2012, com apenas 3% de Viognier na composição, o vinho tem notas de frutas vermelhas e negras (cassis), notas de especiarias como pimenta, além de um toque floral. É bem tânico, mas os taninos são doces e o vinho tem muito corpo e muito álcool, bem integrados. A acidez é refrescante, trazendo um final agradável.

PRODUTOR BODEGAS TRAPICHE
ANO 2012
REGIÃO MENDOZA
PAÍS ARGENTINA
PONTUAÇÃO 87
COR tinto
BEBER ATÉ 2020
DATA DA DEGUSTAÇÃO Dezembro-2015

Outra tendência que vimos foram os vinhos orgânicos, com muitos produtores como Chakana, Domaine Bousquet e alguns vinhedos da Familia Zuccardi já certificados.

Também acompanhamos a evolução dos vinhos argentinos com a Andeluna. Provamos 4 safras de um mesmo vinho, das safras de 2003 a 2012. Os vinhos apresentaram ótimo envelhecimento, sendo que o 2003 foi uma bela surpresa.

Andeluna Passionado Cuatro Cepas 2003: um blend de Merlot, Cabernet Sauvignon, Malbec e Cabernet Franc, muito aromático com aromas de ervas verdes secas, fruta negra (cereja), floral (violeta), terra, notas medicinais, além disso notas de evolução como balsâmico, tabaco, couro e chocolate. Na boca, um vinho grande, em desenvolvimento ainda. As notas de balsâmico se misturam às frutas negras, o vinho tem ainda bastante tanino, porém fino, acidez média+ e muito corpo. Um excelente vinho, complexo, de alta qualidade e de final longo.

PRODUTOR ANDELUNA
ANO 2003
REGIÃO MENDOZA
PAÍS ARGENTINA
PONTUAÇÃO 92
COR tinto
BEBER ATÉ 2018
DATA DA DEGUSTAÇÃO Dezembro-2015

Fosse só isso, a viagem já teria valido a pena, mas ainda teve os vinhos da Huentala Wines e da Escorihuela Gascón, e um vinho branco impressionante da DiamAndes, um vinho bag-in-box inesperadamente bom. Além disso, as paisagens dos Andes, as mini feiras com produtores e as empanadas. Ah, as empanadas…. Mas tudo isso vai ficar para os próximos posts.

Aproveite seu fim-de-semana!

Ale Esteves

Empanadas na Huentala Wines, com vista para os Andes.

Empanadas na Huentala Wines, com vista para os Andes.

Comentários

comments

Leave a Reply